segunda-feira, fevereiro 19, 2007

prefácio

Encontro-me na fase final do meu livro. Estou a escrever as ultimas páginas e decidi que podia deixa aqui pelo menos o prefácio desta obra que vai ser um best-seller e até vai ser adaptada ao cinema (já recebi algumas propostas tentadoras, ah pois já!)


A multidão estava alvoraçada. As pessoas saíam todas de casa e juntavam-se aos motins que se iam formando pelas ruas e que ganhavam cada vez mais consistência. Todos gritavam e ninguém se fazia entender. Muitos reuniam-se junto da fonte da praça principal e um homem parecia destacar-se no meio de toda aquela agitada multidão. Um homem vestido com um manto encarnado. Velho de aparência mas cheio de energia elevava o braço ao ar e balbuciava um conjunto de palavras que pareciam animar cada vez mais as massas e move-las num único sentido. As suas palavras acicatavam ainda mais a chama de raiva e ódio que fumegava nos seus corações. Muitos gritavam concordando, outros aplaudiam. Pouco depois, a praça ficou de tal modo cheia que ninguém mais lá conseguia entrar, ficando muita gente nas ruas que lhe davam acesso, desesperados para ouvirem o que aquele homem dizia. Havia os mais audazes que subiam para cima de arcos, estátuas ou telhados. As varandas estavam cheias bem como todas as janelas. Pouco depois a ordem de marcha foi dada e a multidão, como um só, deslocou-se atrás do seu orador. Brandindo bem alto as suas espadas (ou qualquer outro utensílio que servisse de arma) numa das mãos e archotes na outra, milhares de pessoas percorriam as ruas e ruelas de toda a cidade. Cordas foram atadas a várias estátuas para as derrubarem. Fogo foi lançado a vários edifícios importantes e todos aqueles que se lhes colocassem no caminho eram mortos, isto porque se muitos eram os que formavam a multidão enfurecida, não menos eram os que dela fugiam. Sangue inocente foi derramado e ao fim do dia havia já ruas totalmente alagadas de sangue e cobertas de corpos. A multidão estava enfurecida e ninguém a conseguia conter.
Os sinos da Grande Casa do Campanário começaram a badalar dando ordem de evacuação a todos quanto pudessem. As multidões que fugiam não sabiam onde se esconder. Muitos tentavam procurar refúgio dentro das Casas de Reunião, na esperança de que os revoltosos respeitassem a ancestralidade e importância de tais lugares, mas nula era tal esperança. As portas dessas casas foram arrombadas e todos quanto lá estavam dentro, desde a mais nova criança ate ao mais velho, foram chacinados violentamente. Muitos ao verem que não havia hipótese fugindo juntavam-se aos que perseguiam, tentando assim salvarem-se de uma morte certa. No céu nuvens negras cobriam a cidade e grandes bandos de corvos sobrevoavam-na.
O som claro de trombetas soou e das janelas do alto, alvo e imponente castelo da cidade, rompeu uma luz incandescente a qual cegou temporariamente toda a multidão revoltosa. Pombas brancas voaram no céu em espirais afastando muitos dos corvos e nas ruas surgiram exércitos de soldados vestidos de cinzento claro, quase branco. No porto da cidade soou o som de uma explosão, indicando assim que dois enormes navios de madeira, com muitas velas brancas desfraldadas estavam a chegar. Os soldados tentavam abrir caminho por entre a multidão, com o objectivo de conseguirem criar um percurso seguro desde o castelo até ao porto. A família real tinha de ser transportada em segurança. Dela dependeria todo o futuro de Utópia.
Assim que a família real, montada em velozes corcéis, chegou ao porto e embarcou num dos navios, acompanhada do máximo de soldados que conseguiram entrar a bordo, os barcos partiram para alem da linha do horizonte para que nunca mais fossem vistos. A mortandade continuou pela cidade. Havia ainda quem resistisse e tentasse a todo o custo sair da cidade, mas já não havia esperança…era o fim. A multidão enfurecida arrebentou com as portas do castelo entrando no palácio real, deitando abaixo todas as estátuas antigas e destruiu tudo o que fosse real, lançando-lhes fogo. Do alto da mais alta torre do Campanário, ao lado de uma horrível estátua de boca escancarada, representante do mal, um vulto alto, negro e cruel observava tudo o que se passava debaixo dos seus pés de um modo aprovador.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Aborto

Dia 11 de Fevereiro todos os portugueses irão poder participar na decisão da despenalização, ou não, da mulher por realizar um aborto voluntário. Praticamente todos têm demonstrado a sua opinião ou através de debates, ou de campanhas na rua, ou de tempo de antena ou em sites e blogs, tal como eu agora faço. Contudo, apesar da muita informação transmitida e de uma notória pressão dos media para que as pessoas votem a favor, julgo que é necessário uma vez mais repetir algumas situações que a meu ver parecem ainda não terem sido bem assimiladas pela grande maioria das pessoas.
Muitas pessoas questionam-se se no caso de violação não iriam ser a favor de um aborto, como solução para esse problema. È importante no entanto ressaltar que não se está a debater isso. A actual lei portuguesa, já desde 1984, que prevê o aborto legal para várias situações. E Passo a citar:
- O aborto não é punível quando (causas de exclusão da ilicitude – artº 142º) for efectuado por médico, ou sob a sua orientação, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido, com o consentimento da mulher grávida quando:
a) constituir o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida ou casos de fetos inviáveis (sem limite de tempo);
b) se mostrar indicado para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física e psíquica da mulher grávida e for realizada nas primeiras doze semanas de gravidez;
c) houver motivos seguros para prever que o nascituro virá a sofrer, de forma incurável, de doença grave ou malformação congénita (aborto eugénico), e for realizado nas primeiras 24 semanas;
d) a gravidez tenha resultado de crime contra a liberdade e autodeterminação sexual (por exemplo, violação) e a interrupção for realizada nas primeiras 16 semanas
Se não estamos a decidir sobre qualquer um destes casos, estamos a decidir sobre o quê? Estamos a decidir se uma mulher, por qualquer razão engravidar e essa gravidez não for desejada, pode abortar sem que por isso seja punida. Acontece que actualmente poucos são os casos em que uma mulher pode engravidar indesejavelmente. Defenderem a despenalização do aborto por essa razão é o mesmo que atirarem areia para os olhos. Os métodos contraceptivos são mais eficazes do que nunca. A pílula tem uma taxa de eficácia de 99% e o preservativo assemelha-se a ela. Em todos os centros de saúdes são distribuídas pílulas e preservativos gratuitamente, para não mencionar os muitos outros sítios onde se podem encontrar preservativos a baixo custo ou mesmo a custo zero. A instalação de um dispositivo intra-uterino actualmente também pode ser realizada a custo zero, portanto resta-me perguntar: quem é que engravida involuntariamente?
Se tais gravidezes involuntárias acontecem, a razão para esse efeito é falta de educação. Em todas as escolas desde cedo os alunos recebem educação sexual, se os métodos contraceptivos estão ao alcance de toda a gente, a falha é de quem? Das próprias pessoas. Sendo assim, não devem ser punidas por um crime, uma vez que tendo oportunidade de evitar o aborto como recurso, preferem ignorar tudo o que está ao seu alcance e cometer tal infracção? Por essa ordem de ideias deveríamos despenalizar muitas outras pessoas que cometem actos criminosos tais como conduzir embriagado, uma vez que também estaríamos a agir contra a liberdade de um indivíduo.
Agora, porque será que cometer um aborto é considerado um acto criminoso? Muitos defendem de que é uma decisão que cabe à mulher, uma vez que se trata do seu corpo. É importante salientar que não se trata apenas do seu corpo, mas sim também de um outro ser vivo. È curioso ver como existem tantas pessoas que defendem os direitos dos animais e das plantas, e no entanto essas mesmas pessoas muitas das vezes não se preocupam em defender os direitos de um ser vivo ainda em gestação. É que não se trata apenas de um ovo, trata-se de um ser humano em desenvolvimento, vivo, cujo coração a partir das 8 semanas já bate. Cujo cérebro se começa logo a formar, e cujo genoma é imediatamente definido segundos após a fecundação.
Para finalizar, pergunto: a quem é que interessa então a aprovação de uma lei como esta? Será às mulheres? Talvez a umas poucas, mas será essencialmente ao governo que passa a ter uma imagem mais favorável junto dos eleitores, e acima de tudo às empresas que se dedicam a este tipo de actividade (é curioso como já foi definido que uma empresa espanhola de abortos se vai instalar em Lisboa ainda este ano, mal o referendo seja concluído, independentemente do seu resultado).
Para finalizar, concordar com a despenalização do aborto? Não, obrigado!