domingo, janeiro 22, 2006



Já que descrevi o que é andar de comboio numa hora de ponta, decidi agora descrever o que é andar de autocarro.
Assim que chego a Santa Apolónia, e se por acaso estiver num daqueles meus dias em que já estou atrasado (o que até é bastante frequente), lá vou eu em passo acelerado passando a frente dos que são mais lentos, ansioso por finalmente chegar à paragem dos autocarros (a minha paragem é ainda por cima a que mais longe fica da estação!). Tal como muitas outras pessoas, assim que saio da estação vejo que autocarros estão a chegar e se me interessam ou não. Se não interessar continuo no meu passo ate chegar à paragem…se interessar…enfim, lá começo eu a correr desenfreadamente para apanhar o autocarro, acompanhado de muitas outras pessoas, e não há penteado nem fato que resista a tanta correria.
Em horas de ponta as filas para subir para os autocarros são intermináveis, e os já de si super lotados autocarros não conseguem suportar muitas mais pessoas. Quanto a mim, quer tenha pressa ou não, se o autocarro já estiver bem cheio não estou para subir e ir comprimido que nem uma sardinha em lata!
Entro num autocarro e passo o santo e abençoado cartão Lisboa Viva pela máquina. Faz “bip” e sigo em frente em busca de um lugar. São poucas as vezes em que me sento. Na maioria das vezes ou os lugares já estão todos ocupados ou acabo sempre por ceder o meu lugar a uma senhora idosa. Para mal de mim, muitas das vezes acabo sempre por me sentir apertado no autocarro e antes que me comece a sentir com falta de ar abro logo uma janela, quer esteja quente ou frio para entrar ar e não ir a respirar um ar já de si saturado…é praticamente inevitável que um autocarro vá em hora de ponta ligeiramente vazio, mas para ir para Santos não tenho outra hipótese…aquele é sem duvida o caminho mais rápido…e o mais solitário…
Acabo sempre por ficar apertado junto de alguém. É nessa altura que me passam os pensamentos mais estranhos pela cabeça…que posso ser assaltado, ou que algum tarado(a) se aproveite daquela situação para abusar. Agarro-me ao ferro para não cair com os balanços e tento não pensar nisso nem olhar muito para as pessoas que me rodeiam. Mudo a faixa de música do meu mp3 para uma que eu goste mais e lá continuo a minha viagem de autocarro pela zona baixa de Lisboa.
Gosto de apreciar o rio Tejo e os edifícios daquela zona. Ao passar pelo jardim do tabaco gosto de imaginar a antiga alfandega dali, e os armazéns repletos de mercadorias vindas do ultramar. Ao aproximar-nos da velhinha praça do comércio gosto de observar as obras do metro e aquele esplêndido edifício do qual nunca me consigo enjoar…gosto mesmo de Lisboa!
Contudo, apesar da paisagem há coisas que não consigo deixar de observar. Não consigo deixar de reparar na forma como as pessoas falam. As conversas são sempre as mesmas: os homens falam de futebol, as mulheres falam das coisas de casa. Os mais velhos falam das suas infinitas doenças e males e ate parecem fazer competição para ver quem sofre mais e mais vezes vai ao médico. Não consigo deixar de reparar na forma como as pessoas andam, na sua aspereza ou na sua preguiça. Umas querem a todo o custo entrar no autocarro, outras empurram as que estão lá mais ao fundo para poderem caber. Umas não estão para se mexer do seu lugar, outras não pensam em sequer a um mais velho o seu banco dar. Há pessoas de todas as naturezas e de vários níveis sociais a partilhar aquele mesmo meio de transporte. Consegue-se ver os executivos de fato, e vemos as simples mulheres que vendem em lojas. Vemos as secretárias e conseguimos ver pobres coitados que mal dinheiro têm para a viagem pagar. Perto de algumas pessoas cheira bem, perto de outras fazemos um esforço enorme para poder respirar. As crianças choram, as mães tentam cala-las caindo por vezes no erro de lhes bater o que aumenta o sua choradeira, as velhas resmungam, as pessoas reclamam por estarem a ser empurradas. Quem traz sacos nas mãos as vezes deixa-os cair espalhando tudo, para não falar nos constantes amassos e empurrões que sofremos quando o autocarro trava!
Por fim o autocarro chega ao terreiro do paço. Aleluia! Quase toda a gente sai nessa paragem…já se pode respirar. Se tiver apanhado um autocarro directo para Santos continuo dentro do autocarro e a viagem a partir daí torna-se muito mais sossegada...menos gente, menos barulho, menos confusão., caso contrário, saio e procuro por um outro autocarro que passe pela minha paragem de destino. É nessa altura que vejo a pressa das pessoas que chegaram nos barcos, a pressa daqueles que querem trocar de autocarro que ate perdem a preocupação com os carros que passam na estrada. Ninguém tem tempo a perder! Faz-me pensar na frase que uma vez ouvi no comboio “ninguém pode perder um minuto na vida, mas podemos perder a vida num minuto”…. Penso ainda que a organização das coisas e o facto de sermos tão cronometrados em tudo aquilo que fazemos nos faz perder um pouco da nossa humanidade, e faz que, sem duvida alguma, deixemos de apreciar tudo aquilo que nos rodeia, cada momento, cada coisa…Seguindo em frente o autocarro embrenha-se na parte velha de Lisboa…passamos ao lado do ascensor da bica e por fim chego à minha paragem de saída: Conde Barão, um largo que nada tem de agradável mas que ate acho simpático nem que seja pelas centenas de vezes que já ali passei. Uma vez uma senhora bem velhinha virou-se para mim perguntando se eu saia no conde barão e eu respondi que “sim”, ao que ela depois acrescentou “humm o conde barão, era um grande armazém, as vezes comprava lá tecidos para costurar ou então já roupa feita. Não sei porque fechou…foi uma pena, era uma loja tão bonita”, enfim, foi uma nota que quis acrescentar sobre esse lugar. É sempre bom ficar a conhecer essas pequenas coisas da história de uma cidade.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Interessante,

domingo, 22 janeiro, 2006  

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