Olho o relógio uma vez mais...são 7 horas e 30 minutos...ainda consegui chegar a horas à estação de comboios. Olho em redor e vejo a quantidade de gente que já lá está a espera que chegue o regional das 7:39...uma multidão aguarda pacientemente... parecem espectros silenciosos, repletos de olheiras. Parecem máquinas programadas apenas para trabalhar. Todos os dias a mesma vida, todos os dias as mesmas acções. Acordam, vestem-se, comem, vão para a estação. Colocam-se no local que mais lhes interessa, de modo a pouparem o máximo de tempo em todos os movimentos. Por norma quem vai para Santa Apolónia coloca-se na primeira carruagem para não andar muito. Quem sai no oriente coloca-se mais a meio da composição para ficar perto das escadas rolantes quando sair do comboio. Como tal, quando chego à estação percebo logo perfeitamente onde a maioria das pessoas irão sair.
Embora vá para Santa Apolónia, desloco-me mais para o fundo da estação. Combinei com o João, o meu companheiro de viagens de alguns dias da semana. Ali parado, coloco os phones nos ouvidos e começo a ouvir a música que trouxe no meu leitor de mp3. Enquanto aí estou, durante esses 10 intermináveis minutos que faltam para a chegada do comboio, observo tudo o que se passa a minha volta. São dezenas de pessoas ali paradas, umas a conversarem, outras, como eu, caladas. Uns a ler o jornal, outros simplesmente a olhar. Olhares vagos e distantes. Há uma velhinha que atira pão para a linha de comboio, para que os passarinhos vão lá comer. Algumas pessoas ainda a olham de lado, outros simplesmente a ignoram…já é tão habitual ela acordar cedo para fazer aquilo… Observo a roupa que cada um traz. Se é Outono ou primavera percebe-se a indefinição do traje a trazer. Uns mais calorentos vêm de t-shirt ou apenas camisa, outros mais friorentos trazem a camisolinha ou ate um bruto casacão. Se é Inverno vimos com o chapéu-de-chuva e o quente sobretudo, se é verão vimos só de t-shirt e de calções. Quando há mais frio ouvem-se uma série de barulhos curiosos. O vento nessas alturas sopra frio, o nariz pinga, muitos tossem, outros assoam-se deixando encarnado o já de si pobre nariz entupido. Muitos colocam as mãos no bolso ou levam-nas à boca para as aquecer com o bafo. Os olhos estão cheios de lágrimas provocadas pelo frio. Se chove é um problema….todos estão com o chapéu aberto, e embora pensem que assim não se molham, levam em cima com a água que cai do chapéu vizinho.
7:40. Chega finalmente o regional. As pessoas apressam-se para ficar mesmo em frente da porta. Parecem animais, querem ser os primeiros a entrar para arranjar lugar. O comboio para e as portas abrem-se. Primeiro sai quem quer sair e só depois podemos entrar. Impacientemente muitos começam já a bufar dando a entender que nesta porta onde estão ta tudo a sair mais lentamente que nas outras e assim os outros vão já roubar-lhes o lugar. Uma velhinha tenta su
bir lentamente os altos degraus e um cego precisa de ajuda para se apoiar. Eu queria ver é como é que faziam se fosse alguém de cadeiras rolantes…
Finalmente entro no comboio. Como seria de esperar tenho de ir em pé…um comboio que já vem de tomar quando chega à minha estação já não vem propriamente vazio. Procuro o João e lá está ele…sentadinho encostado à janela. Agarro-me a um banco e tento manter o equilíbrio para ver se não caio durante as travagens que o comboio pode fazer. Assim que o comboio começa a andar faz-se silêncio total. Alguns tiram os livros das malas e começam a ler, outros continuam a ler o jornal. Há os que ouvem musica e a maioria vai a dormir. As conversas fazem-se num murmúrio. Para contrariar essa lei imposta empiricamente eu e o João vamos a rir em alto e bom som. Para variar nunca vamos calados e qualquer que seja a conversa vamos sempre a rir. Quem nos ouve olha para nós reprovando parecendo que gritam “deixem os outros dormir!”
Chega o revisor, ou o “picas-man” como eu lhe chamo. “chic, chic, chic” faz o barulho do pica enquanto vai picando os bilhetes. Tiro o meu passe da carteira e mostro-lhe. Ele acena com a cabeça e volto a arruma-lo. Para variar olho para o revisor e lá o vejo a explicar a uns passageiros que o bilhete que compraram não serve para andar de regional. Dizem sempre que não sabiam que assim era, que pensavam que era tudo igual…a historia é sempre a mesma. Muitos já sabem que assim é mas fazem-se de parvos mostrando uma cara de admiração e ate tirando a carteira só para mostrar que se for preciso pagam a diferença. O revisor lá muito pacientemente diz que não é preciso mas que para a próxima vez terão de pagar uma avultada multa.
O comboio continua a sua viagem parando em mais duas outras paragens antes de chegar ao oriente. Em cada paragem entra mais um lote de pessoas em tudo iguais a todas as outras que já estão dentro da carruagem.
“Próxima paragem, oriente” diz a voz feminina programada para falar quando o comboio chega a uma estação. Oriente…nesta paragem sai quase que 80% de todos os passageiros….é normalmente nesta altura que finalmente me consigo sentar, mas também não é por muito tempo, mais 10 minutos e já estou a chegar a Santa Apolónia.
Por fim o comboio começa a abrandar, é sinal que estamos a chegar ao destino final. A maioria das pessoas levanta-se logo em direcção à porta. Não há um minuto a perder! Apressadas tentam despachar-se o mais depressa possível…que stress! Que maquinas!
Parou! E toda a gente corre apressada para a saída da estação. O caminho até a saída é ainda grande…ainda gostaria de perceber porque raio é que a CP, ou a Refer, também não facilita as coisas aos passageiros…as linhas do regional e do suburbano deveriam ser as que estão dentro da estação para que se perdesse o mínimo de tempo possível e para lhes poupar o facto de ter de andar tanto para chegarem até às paragens de autocarro que estão à saída.
Eu e o João, para contrariar um pouco as coisas vamos lentamente saindo da carruagem, sempre na conversa e na paródia. Olhamos para os anúncios e tentamos imaginar as coisas de outra maneira, somos dos poucos que não vão nem a correr nem em silêncio mórbido. Alguns empurram-nos apressados mas nos nem damos importância. Olho para a vida que há dentro da estação…alguns mendigos estão deitados nos bancos. Procuram a estação para se protegerem do frio da noite…vejo pessoas que assim que saem do comboio vão logo para a caixa Multibanco ou então vão a correr para a papelaria para comprar o jornal e/ou tabaco.
Por fim, calmamente, eu e o João passamos a porta da estação onde há uma senhora a distribuir gratuitamente o jornal Destak, um jornal que ate me agrada ler nem que seja para ver o horóscopo que diz coisas tão engraçadas como “coma laranjas”,”não ande à chuva”,”não faça nada que não queira”….São conselhos bastante úteis que eu, sem duvida alguma, não me lembraria de por em pratica se não fosse uma astróloga qualquer a lembrar-me.
Embora vá para Santa Apolónia, desloco-me mais para o fundo da estação. Combinei com o João, o meu companheiro de viagens de alguns dias da semana. Ali parado, coloco os phones nos ouvidos e começo a ouvir a música que trouxe no meu leitor de mp3. Enquanto aí estou, durante esses 10 intermináveis minutos que faltam para a chegada do comboio, observo tudo o que se passa a minha volta. São dezenas de pessoas ali paradas, umas a conversarem, outras, como eu, caladas. Uns a ler o jornal, outros simplesmente a olhar. Olhares vagos e distantes. Há uma velhinha que atira pão para a linha de comboio, para que os passarinhos vão lá comer. Algumas pessoas ainda a olham de lado, outros simplesmente a ignoram…já é tão habitual ela acordar cedo para fazer aquilo… Observo a roupa que cada um traz. Se é Outono ou primavera percebe-se a indefinição do traje a trazer. Uns mais calorentos vêm de t-shirt ou apenas camisa, outros mais friorentos trazem a camisolinha ou ate um bruto casacão. Se é Inverno vimos com o chapéu-de-chuva e o quente sobretudo, se é verão vimos só de t-shirt e de calções. Quando há mais frio ouvem-se uma série de barulhos curiosos. O vento nessas alturas sopra frio, o nariz pinga, muitos tossem, outros assoam-se deixando encarnado o já de si pobre nariz entupido. Muitos colocam as mãos no bolso ou levam-nas à boca para as aquecer com o bafo. Os olhos estão cheios de lágrimas provocadas pelo frio. Se chove é um problema….todos estão com o chapéu aberto, e embora pensem que assim não se molham, levam em cima com a água que cai do chapéu vizinho.
7:40. Chega finalmente o regional. As pessoas apressam-se para ficar mesmo em frente da porta. Parecem animais, querem ser os primeiros a entrar para arranjar lugar. O comboio para e as portas abrem-se. Primeiro sai quem quer sair e só depois podemos entrar. Impacientemente muitos começam já a bufar dando a entender que nesta porta onde estão ta tudo a sair mais lentamente que nas outras e assim os outros vão já roubar-lhes o lugar. Uma velhinha tenta su
bir lentamente os altos degraus e um cego precisa de ajuda para se apoiar. Eu queria ver é como é que faziam se fosse alguém de cadeiras rolantes…Finalmente entro no comboio. Como seria de esperar tenho de ir em pé…um comboio que já vem de tomar quando chega à minha estação já não vem propriamente vazio. Procuro o João e lá está ele…sentadinho encostado à janela. Agarro-me a um banco e tento manter o equilíbrio para ver se não caio durante as travagens que o comboio pode fazer. Assim que o comboio começa a andar faz-se silêncio total. Alguns tiram os livros das malas e começam a ler, outros continuam a ler o jornal. Há os que ouvem musica e a maioria vai a dormir. As conversas fazem-se num murmúrio. Para contrariar essa lei imposta empiricamente eu e o João vamos a rir em alto e bom som. Para variar nunca vamos calados e qualquer que seja a conversa vamos sempre a rir. Quem nos ouve olha para nós reprovando parecendo que gritam “deixem os outros dormir!”
Chega o revisor, ou o “picas-man” como eu lhe chamo. “chic, chic, chic” faz o barulho do pica enquanto vai picando os bilhetes. Tiro o meu passe da carteira e mostro-lhe. Ele acena com a cabeça e volto a arruma-lo. Para variar olho para o revisor e lá o vejo a explicar a uns passageiros que o bilhete que compraram não serve para andar de regional. Dizem sempre que não sabiam que assim era, que pensavam que era tudo igual…a historia é sempre a mesma. Muitos já sabem que assim é mas fazem-se de parvos mostrando uma cara de admiração e ate tirando a carteira só para mostrar que se for preciso pagam a diferença. O revisor lá muito pacientemente diz que não é preciso mas que para a próxima vez terão de pagar uma avultada multa.
O comboio continua a sua viagem parando em mais duas outras paragens antes de chegar ao oriente. Em cada paragem entra mais um lote de pessoas em tudo iguais a todas as outras que já estão dentro da carruagem.
“Próxima paragem, oriente” diz a voz feminina programada para falar quando o comboio chega a uma estação. Oriente…nesta paragem sai quase que 80% de todos os passageiros….é normalmente nesta altura que finalmente me consigo sentar, mas também não é por muito tempo, mais 10 minutos e já estou a chegar a Santa Apolónia.
Por fim o comboio começa a abrandar, é sinal que estamos a chegar ao destino final. A maioria das pessoas levanta-se logo em direcção à porta. Não há um minuto a perder! Apressadas tentam despachar-se o mais depressa possível…que stress! Que maquinas!
Parou! E toda a gente corre apressada para a saída da estação. O caminho até a saída é ainda grande…ainda gostaria de perceber porque raio é que a CP, ou a Refer, também não facilita as coisas aos passageiros…as linhas do regional e do suburbano deveriam ser as que estão dentro da estação para que se perdesse o mínimo de tempo possível e para lhes poupar o facto de ter de andar tanto para chegarem até às paragens de autocarro que estão à saída.
Eu e o João, para contrariar um pouco as coisas vamos lentamente saindo da carruagem, sempre na conversa e na paródia. Olhamos para os anúncios e tentamos imaginar as coisas de outra maneira, somos dos poucos que não vão nem a correr nem em silêncio mórbido. Alguns empurram-nos apressados mas nos nem damos importância. Olho para a vida que há dentro da estação…alguns mendigos estão deitados nos bancos. Procuram a estação para se protegerem do frio da noite…vejo pessoas que assim que saem do comboio vão logo para a caixa Multibanco ou então vão a correr para a papelaria para comprar o jornal e/ou tabaco.
Por fim, calmamente, eu e o João passamos a porta da estação onde há uma senhora a distribuir gratuitamente o jornal Destak, um jornal que ate me agrada ler nem que seja para ver o horóscopo que diz coisas tão engraçadas como “coma laranjas”,”não ande à chuva”,”não faça nada que não queira”….São conselhos bastante úteis que eu, sem duvida alguma, não me lembraria de por em pratica se não fosse uma astróloga qualquer a lembrar-me.


3 Comments:
E eu que nunca mais fui com voces! ja tenho saudades tuas pá!
Só me lembro daquela vez que fomos tomar cafe os tres.. Bolas.. Eu ja nao podia mais de tanto rir! ***
BEM SE NAO TIVESSES NOME AXO K TE CHAMAVA DE "DITAILE" HM PRECEBESTE? LOL LOL, HM NUNCA PENSEI K UMA VIAGEM DE COMBOIO PUDESSE TER TANTO PARA DIZER... HM AXO K VOU COMEÇAR A DESCREVER AS MINHAS VIAGENS DE METRO, PODE SER K CONSIGA UM EDITOR,KEM SABE! LOL
VA PORTA TE BEM OK ! DORU TE!!!!
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Quando os corpos cansados do sono mal dormido se arrastam pela manhã nas carruagens é difícil imaginar alguém a sorrir. Ainda bem que és uma dessas excepções *
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